quer dizer que tem alguma coisa realmente errada.
O Amor, de novo.
Amamos mais o objeto amado ou o simples fato de estarmos amando? Aliás, o que é amar, afinal? Por que sentimo-nos tão bem por estarmos amando? Realmente nos sentimos assim ou sentimos isso por pensarmos que, pelo fato de estarmos amando, devemos assim nos sentir? E se nos sentirmos mal por estarmos amando? Devemos nos sentir mal por nos sentirmos mal por estarmos amando e, assim, desencadear uma série de sentimentos ruins e tristes pelo simples remorso e/ou mal estar em relação a si mesmo, o objeto amado ou alguma outra pessoa? Eu não sei, sinceramente.
Você deve estar se perguntando: “mas por que alguém se sentiria mal por estar amando?”. É automático nos sentirmos subjetivamente bem e vermos o céu mais azul, as cores mais vibrantes e não repararmos no mau humor das pessoas dentro do metrô lotado pela manhã ou pela noite quando estamos amando. O fato de amarmos, algo, alguém ou alguma causa muda o nosso foco das coisas ruins e vemos apenas as coisas boas à nossa volta. (É engraçado como as pessoas são extremistas: ora estão revoltadas com o mundo, ora tudo as deixa tristes, ora tudo parece cheio de glitter, ora tudo parece monocromático, nunca num meio termo.) Porém, estar amando alguém pode nos ser doloroso, seja porque não somos correspondidos, seja porque estamos inseridos num triângulo amoroso, seja porque não temos tempo para cultivar o Amor, seja porque nos frustramos nele, seja porque pensamos estar frustrando o outro, seja qualquer outro motivo. Razões existem aos borbotões, você é que nunca parou para pensar nisso.
Quando amamos, tendemos a perder a noção do mundo e dos outros, concentramo-nos no nosso umbiguinho e no objeto amado apenas, ficamos egoístas e sem noção. Isso é um perigo, porque a tendência é a alienação. Às vezes, as pessoas amam-se tanto que perdem a própria individualidade e uma começa a viver a vida da outra. Não que duas pessoas que se amam não acabem vivendo juntas momentos felizes e não tão felizes, compartilhando uma vida inteira; porém, a individualidade de cada uma deve ser sempre mantida, não se pode abrir mão de quem se é por causa da outra, propositalmente ou não.
O Amor também torna as pessoas mais empáticas e altruístas. Quando se ama alguém (ou uma causa filantrópica que atinge outras pessoas), a pessoa sente-se feliz ao saber que a(s) outra(s) também está(ão) feliz(es). A pessoa quer fazer de tudo para manter a amada feliz para sentir-se feliz. É uma relação interesseira, em outros termos, pois queremos fazer o outro feliz porque isso assim nos faz. E isso torna tudo mais bonito, porque mostra que o mundo pode ser um lugar melhor, realmente, se darmos lugar ao Amor por ele. O mundo utópico não é tão impossível, afinal. Talvez não seja tão utópico assim. Devemos colocar um pouco de confiança nessa causa e trabalhar em cima dela, ficar em cima do muro em meio às críticas e negatividade não ajuda em nada.
Desde criança pergunto-me o que é o Amor. Para ser honesta, desde o meu primeiro cartão de Dia das Mães da escolinha, no qual todas nós escrevíamos com a melhor caligrafia que podíamos: “Mãe, eu te amo”. Não sabíamos o que estávamos dizendo, só sabíamos que amávamos, seja lá o que essa coisa de “amor” fosse. Quando cresci um pouco e, depois que percebi que não entendia o que isso significava, não mais escrevi cartõezinhos com corações. Passei, sim, a fazer bolos e quitutes para demonstrar o meu sentimento e gratidão para os meus pais e amigos, mas nunca mais mencionei a palavra “amor”. Até que, numa dada época, eu simplesmente soube que estava amando. Essa palavra esquecida, guardada no fundo da memória, surgiu repentinamente nos meus lábios. Aí eu comecei a (tentar) entender o Amor romântico.
Quatro anos depois, ainda não encontrei uma definição. Ainda não encontrei motivos. Adquiri um pouco de experiência, amadureci. Contudo, ainda me pergunto se realmente amo e/ou amei mesmo. Por fim, contento-me com o simples fato de haver Amor na minha vida. O sentimento está aqui, de qualquer maneira. Mesmo que eu ame amar mais do que o objeto amado ou ame mais o objeto amado do que o fato de estar amando, o Amor me preenche de alguma forma. E é isso o que importa.
Sempre me perguntam isso. Por quê? Toda vez é a mesma coisa: por que? Por que isso, por que aquilo, por que gosta de vermelho e não de cor de rosa, por que prefere Eça do que Marian Keyes, por que quer estudar isso aí que você quer ao invés de História ou Gastronomia, entre outros porquês.
Nem tudo precisa de um motivo. “Nem tudo” eu digo as coisas que interferem diretamente na vida dos outros; as coisas pessoais não requerem um porquê. Simplesmente são como são, acontecem como acontecem. Quando as pessoas começam a criar muitos motivos para alguma coisa, invariavelmente significa que elas não querem realmente. Ou não precisam. Às vezes, procuramos motivos para nós mesmos nos convencermos de algo. O mundo não gira em torno de nós e o que aparentamos diante de terceiros. Temos que fazer as coisas porque sentimos algo dentro de nós que simplesmente precisa que elas aconteçam. Isso não significa, necessariamente, uma paixão por algo. É uma necessidade inconsciente, uma curiosidade, uma emoção, uma vontade de bem querer, um vazio a preencher.
Acredito piamente que, quando gostamos de ou queremos algo, não há motivos para isso. Porque o gostar e o querer são emocionais, para além da razão. Podemos posteriormente encontrar um motivo para eles, mas nunca saberemos o porquê. Essas coisas são simples, simples demais. A resposta às vezes até parece burra: “porque eu quero/gosto”. Às vezes calha de a gente saber o porquê, mas isso não significa que a gente deva falar isso para todo mundo que perguntar. É algo íntimo, quase um segredo. Particular.
Tem gente que acha que, quando não temos um motivo (ou não queremos explaná-lo, o que muitas vezes é automaticamente traduzido por “essa pessoa não sabe”), é porque não queremos/gostamos de verdade. Na realidade, temos todos os motivos do mundo para fazer, querer e gostar de milhares de coisas todos os dias, a todo o momento, contudo não gostamos de todas essas coisas. Não fazemos todas essas coisas. Não queremos todas essas coisas. Queremos aquela coisiquinha específica, às vezes discreta, quase imperceptível que ninguém vê. E por quê? Porque sim.
O que eu quero fazer da minha vida, por que eu quero e como eu quero fazer não importa pra nenhum de vocês. A minha vida não tem que fazer sentido pra você, não tem que te satisfazer. E você não tem que me julgar, não precisa e nem tem o direito de. Apesar de fazer isso. Um pouco de respeito à minha individualidade e introspecção é bacana. Não é proposital nem manha: é um traço meu mesmo. Assim como aceito a sua existência do modo como ela é, gostaria que aceitasse a minha do jeito que sou.
Quando gostamos de algo de verdade, não precisamos falar sobre isso para ninguém nem procurar motivos para.
As palavras são: saudade e ciúme.
A palavra “saudade” é uma palavra especial. Existe apenas na língua portuguesa e em mais nenhuma outra língua, por isso que ela é distinta. Há expressões equivalentes, mas não a “saudade” propriamente dita. Especial, vê?
A palavra “ciúme”, por sua vez, não é especial, não como a “saudade”. Existe em outras línguas, ainda mais porque é algo muito comum. É natural do ser humano sentir ciúme, seja por um objeto, animal ou pessoa. É natural, não só do ser humano como também do animal: é um instinto selvagem. Sentimos ciúme quando percebemos que a nossa posse do objeto amado está em xeque e reagimos das formas mais adversas: com frieza, com barraco, com cotovelada, mostrando os dentes e rosnando como cães dentre outras formas. Mas não é esse o foco desse post, não hoje. É a própria palavra.
“Ciúme” e “Saudade” são palavras que não têm plural. São incontáveis na realidade, portanto você não pode dizer que está com saudades de alguém. Aliás, a saudade é um sentimento, você sente saudade, sofre com a saudade, mas não tem ou possui saudade. O ciúme é a mesma coisa: você o sente. E por que pluralizamos essas palavras?
O plural dá o sentido de vários, ou pelo menos mais do que um. “Um” é “um”, “dois” são “uns“. “Mil” são “uns“. Plural é quase o sinônimo de muito. E quanto mais, melhor, dentro da cabecinha do brasileiro. Se você sente saudade de alguém, parece menos do que o Fulano que diz que sente saudades. Se você diz que sente ciúme, parecerá menos do que se disser que sente ciúmes; na verdade, parecerá que é só uma pontinha de ciúme mas que dali a cinco segundos passará ao passo que, se disser que sente ciúmes terá mais impacto.
As pessoas sentem a necessidade de quantificar e qualificar a todo o momento todas as coisas, como se estivessem valorizando-as. (Incluo em “coisas” as próprias pessoas.) Sentem-se melhores diante de si mesmas, das outras pessoas para quem quantificam e qualificam verborragicamente sobre tudo. As pessoas simplesmente gostam de ser o centro do mundo, não só do seu mundo pessoal como também do mundo comunitário. Creio que seja essa a razão que leva-as a toda a hora chamarem a atenção para si: carência.
Aliás, carência é a palavra-chave de hoje. As pessoas são carentes, precisam saber que há alguém que sente a falta delas. Que sente saudade. Que sente ciúme. Que sente tanto que até pluraliza o que não tem plural para demonstrar maior intensidade. Porque, dentro de um mundo gigantesco e numa vida sem sentido, querem saber que há alguém que nota a presença delas. E tem que ser muito para que sintam-se satisfeitas.
E Sócrates disse:
Conhece-te a ti mesmo.
A estupidez humana em muito me surpreende. Outra coisa que me surpreende é a imaturidade e burrice que acomete muitos dos jovens e adultos em todo o mundo. Não, não é um exagero: quem crê que a violência é a chave para todos os problemas e que é por meio dela que se obtem tudo – o respeito, inclusive. Outro ponto que muito me incomoda é o fato de as pessoas não conseguirem ver um palmo além. Inseridas em determinadas circunstâncias que envolvem mais pessoas e discrepâncias entre si, muitas pessoas não conseguem ver o que elas fizeram para que fossem tratadas de uma determinada forma e, então, dão-se o direito de agirem com cinismo e hipocrisia, além de assumir o papel do pobre coitado ao invés de refletir um pouco sobre as próprias ações. Por quê? Porque é muito mais fácil apontar o dedo para os outros e para o que eles fazem. Ninguém quer sujeitar a si mesmo e ao próprio ego a um julgamento no qual há a possibilidade de perceber-se errado. Quem gosta de perceber que errou, que agiu de má fé? O ser humano, por mais humano que seja – e por mais consciente de que o é seja – não gosta de errar, muito menos de admitir que errou, por puro orgulho. O orgulho, aliás, é uma das principais características humanas que torna-nos mais vlneráveis à emoção. Quando o nosso orgulho está posto em cheque, nossos monstros ficam à solta. Os monstros violentos, os chorosos, os imperativos, os silenciosos: nossos monstros interiores. Não é ruim admitir que temos monstros dentro de nós. Ter consciência deles envolve também ter consciência do que são capazes e, tendo-a, podemos controlá-los, conhecemos os limites da razão e da emoção e podemos respeitá-los, contê-los.
Quem conhece a si próprio não tem dificuldade para controlar-se. Quem conhece a si próprio sabe do que é capaz. Quem conhece a si próprio tem mais consciência das suas próprias ações e, logo, é mais capaz de entender o mundo e as outras pessoas. Quem conhece a si próprio tem mais sensibilidade para entender as outras pessoas e o que elas podem estar pensando e sentindo tanto em relação ao mundo como também em relação a si mesmas e a você. Conheça-te a ti mesmo, mal não te fará.