As palavras são: saudade e ciúme.

A palavra “saudade” é uma palavra especial. Existe apenas na língua portuguesa e em mais nenhuma outra língua, por isso que ela é distinta. Há expressões equivalentes, mas não a “saudade” propriamente dita. Especial, vê?

A palavra “ciúme”, por sua vez, não é especial, não como a “saudade”. Existe em outras línguas, ainda mais porque é algo muito comum. É natural do ser humano sentir ciúme, seja por um objeto, animal ou pessoa. É natural, não só do ser humano como também do animal: é um instinto selvagem. Sentimos ciúme quando percebemos que a nossa posse do objeto amado está em xeque e reagimos das formas mais adversas: com frieza, com barraco, com cotovelada, mostrando os dentes e rosnando como cães dentre outras formas. Mas não é esse o foco desse post, não hoje. É a própria palavra.

“Ciúme” e “Saudade” são palavras que não têm plural. São incontáveis na realidade, portanto você não pode dizer que está com saudades de alguém. Aliás, a saudade é um sentimento, você sente saudade, sofre com a saudade, mas não tem ou possui saudade. O ciúme é a mesma coisa: você o sente. E por que pluralizamos essas palavras?

O plural dá o sentido de vários, ou pelo menos mais do que um. “Um” é “um”, “dois” são “uns“. “Mil” são “uns“. Plural é quase o sinônimo de muito. E quanto mais, melhor, dentro da cabecinha do brasileiro. Se você sente saudade de alguém, parece menos do que o Fulano que diz que sente saudades. Se você diz que sente ciúme, parecerá menos do que se disser que sente ciúmes; na verdade, parecerá que é só uma pontinha de ciúme mas que dali a cinco segundos passará ao passo que, se disser que sente ciúmes terá mais impacto.

As pessoas sentem a necessidade de quantificar e qualificar a todo o momento todas as coisas, como se estivessem valorizando-as. (Incluo em “coisas” as próprias pessoas.) Sentem-se melhores diante de si mesmas, das outras pessoas para quem quantificam e qualificam verborragicamente sobre tudo. As pessoas simplesmente gostam de ser o centro do mundo, não só do seu mundo pessoal como também do mundo comunitário. Creio que seja essa a razão que leva-as a toda a hora chamarem a atenção para si: carência.

Aliás, carência é a palavra-chave de hoje. As pessoas são carentes, precisam saber que há alguém que sente a falta delas. Que sente saudade. Que sente ciúme. Que sente tanto que até pluraliza o que não tem plural para demonstrar maior intensidade. Porque, dentro de um mundo gigantesco e numa vida sem sentido, querem saber que há alguém que nota a presença delas. E tem que ser muito para que sintam-se satisfeitas.

Publicado em: às 26/03/2011 em 05:44  Deixe um comentário  

Perdoe-me.

Toda a vez que vejo um sonho de valsa, penso instantaneamente em você. Ficou como uma marca registrada. Eu nunca te disse, mas não gostava desse bombom; é muito doce. Porém, eu via a embalagem roxa, sabia do seu significado e uma porção de sentimentos invadiam-me de tal forma que o bombom tornava-se gostoso.

A paixão é uma coisa engraçada, afeta diretamente todos os nossos sentidos; por isso não podemos confiar neles. Além disso, eles ficam constantemente aguçados, em busca de um par de olhos conhecidos, um cheiro familiar, uma voz, o toque da pele quente.

Hoje, eu ganhei um bombom. Um Sonho de Valsa. Continuo não gostando dele, é muito doce, já disse. Quando ela estendeu a mão e vi o embrulho, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi você. Lembrei-me dos pores-do-sol no ônibus lotado, das fotos inoportunas que você insistia em tirar, dos nossos bilhetes escondidos. Como a lembrança é emocional!… Era divertido. E, depois, lembrei-me de janeiro, quando a emoção mostrou-se estúpida. Até hoje eu não entendi o que aconteceu de verdade. Sinto-me culpada, creio que eu poderia ter sido mais bacana e inteligente contigo. E vice-versa. Poderíamos ter sido racionais e não sofrerem os dois por amarem-se mutuamente sem o saber, diretamente. Indiretamente, você sabia, tanto quanto eu. Que amor ultra-romântico. Ultrapassado.

O tempo que perdemos nas lamúrias, insensato, parece-me maior do que realmente foi. É engraçado também como a sensação temporal varia de acordo com a descarga emocional do momento.

Contudo, não me arrependo do que fiz, do que fizemos, de como tudo se sucedeu. Poderia ter sido menos desgastante, mais racional e direto, sem a menor dúvida. Mas já foi. Já faz tanto tempo… Pouco? Bastante? A sensação é longíqua.

Nosso relacionamento foi só uma intersecção de retas, mas bastante doloroso. Espero que me perdoe, n’algum dia.

Um abraço, N.

Publicado em: às 06/01/2011 em 15:39  Deixe um comentário  

É, pai.

Toda a vez que estou me despedindo de você penso em dizer: “eu te amo”. Nunca falo. Não sei o porquê. Há um bloqueio interior que impede-me de falar, acho. Falta-me a voz. Não significa, de maneira alguma, que não ame você; longe disso. Se eu não amasse, não me sentiria tão mal por nunca ter dito nada em relação a isso, apenas deixaria passar.

Vejo você chegando, sinto uma vontade de dar um abraço apertado e rir alto, mas não consigo. Sei que faria bem a você, faria um bem enorme a mim também; meu corpo, porém, não se move. Tenho vontade de fazer mil e uma perguntas sobre tudo e todos, porque sei que sempre encontrará uma resposta a cada uma delas.  Você sempre sanou todas as minhas curiosidades e comprou-me o primeiro dos Guias dos Curiosos, do Marcelo Duarte; um dos meus favoritos, até hoje. Tenho vontade de conversar sobre sua vida, tudo o que você fez até hoje, todas as suas vivências e experiências. Nâo consigo também. Nas poucas vezes que andamos de carro sozinhos até mantemos uma conversa animada durante todo o percurso, seja de meia hora, seja de três horas; mas é só no carro. Fora dele, distanciamo-nos muito. É engraçado. Japoneses não são, realmente, muito de abraços e demonstraçõs de afeto. Foi o que aprendi em todos esses anos de vida. “Todos esses anos”. Parece até que vivi muito! Foram apenas dezessete anos. Perto dos seus sessenta e cacetada, são pouquíssimos, tanto em número quanto em maturidade e conhecimento.

Gostaria de conversar mais com você. Todos os dias, quando caminho na volta para casa, penso na vida e na morte. Não só na minha, como na sua também. Você não é jovem, sei disso; e, por mais que eu negue para mim mesma, sei que n’algum dia você vai morrer. Temo esse dia. Lembra-se daquela noite, quando acabou de chegar de São Paulo e eu estava sentada na poltrona lendo algum Wilde e você me perguntou: “você tem medo de me perder?”. Eu, ingenuamente, respondi que não. Aí lembro-me do seu olhar, sério e sereno, dizendo-me: “um dia você vai me perder”. Não sei se você sabia, na época, o quanto isso ia me mudar, se sabia que eu lembraria disso mesmo após dez anos. Eu me lembro. E a cada despedida em cada domingo eu entristeço diante do meu silêncio, com medo de que você morra e que eu não esteja lá pra te socorrer, temerosa de que você se vá sem que eu nunca tenha dito a você que o amo, sem um adeus. Não, eu nunca disse. Só escrevi, em cartões de felicitações de escola do Dia dos Pais, e nem foi com todas as letras: “Eu te ♥”. Acho que o meu medo desse verbo sempre existiu. Amar. Tão bonito e misterioso!… Tal qual o mar. Temo o mar. Temo o Amor, então?… Ei, essa lógica está errada.

Lembro-me de quando você voltava para casa todas as noites, após um longo dia de trabalho. Devia ser cansativo, sair de casa cedíssimo e chegar só as 21h. Tão esforçado!… E, além disso tudo, voltava com um sorriso pra mim e pro I, um abraço, um grito caloroso como sempre faz, contava-me história de personagens fictícias que tinham ido pescar e que foram abduzidas. Você sabia que eu tinha uma fixação por alienígenas e abduções, e eu me impressionava muito. E, depois das histórias, cantava aquela música, lembra-se?… Eu me lembro. Canto-a para a N, quando ela não consegue dormir. E a cantarei aos meus filhos também.

Num dado momento de nossas vidas, você passou a voltar só aos finais de semana.No começo, sentia muita saudade. Doía o meu coração, tão pequenino e cheio de amor de filha. O tempo ajudou-me a acostumar-me com a sua ausência. Dez anos, pai. E você continua o mesmo. Quase o mesmo, já não brigamos mais tão feio quanto naquela última vez.  Lembra-se dela?… Juntamente com o meu crescimento veio também a mudança da minha mente. E a rebeldia da adolescência. Não foi uma rebeldia sem causa, mas uma época na qual comecei a aprender a defender as minhas ideias, principalmente quando estava certa. Comecei isso com você, acho que porque não o temia tanto quanto a mãe. A falta de convivência me fez criar um respeito saudável com você desde sempre. Para alguma coisa boa a distância nos serviu, afinal.

Às vezes, creio que quase sempre, pareço fria com você. Hoje principalmente. Mal sorrimos um para o outro, eu estava “ocupada demais” fazendo aquele colar, que não queria largar por estar finalizando-o, depois de cinco horas sentada fazendo. Fui egoísta e imediatista. Perdoe-me, por favor… Você sabe que eu não sou fria. No fundo, continuo sendo a garotinha do papai, estragada, mimada, carinhosa e carente. Carente de amor paterno. Meu coração dói no Ano-Novo, único dia, praticamente, em que nos abraçamos. Por que nós, japoneses, temos que ser tão frios uns com os outros, inclusive com entes da mesma família? Mané estoicismo, poxa. Poderíamos ser mais como os italianos, ou como os ingleses, ou como os espanhóis.

Hoje, lembrei-me de você cortando a grama com a roçadeira. Aquela pedrinha quase acertou o seu rosto; se não estivesse protegido pela máscara, teria sido um acidente terrível. Aí lembrei-me de que você é mortal. Meu super-herói, um mortal. Eu tenho, sim, medo de perdê-lo. E eu amo você, querido pai.

Publicado em: às 06/12/2010 em 04:19  Deixe um comentário  

Quase rotina

5h30, Metallica me chama. Enrolo na cama, estico meu corpo, tomo impulso para levantar e amoleço. Tenho mais dez minutos para levantar. Meus pés pisam no chão gelado e vem um arrepio nas costas. A camiseta estremece. Ligo o chuveiro. Desperto. Perco a noção do tempo. Esqueci de desativar o alarme, ele está tocando de novo. Não ligo. Desenho no box, deixo recados para mim mesma, desligo o chuveiro. Mal abro a porta, vem o vento gelado da manhã. Uma escova de dentes na boca, uma camiseta na mão, visto-me com pressa: já são mais de 6h. Sinto um aroma de café vindo da cozinha. “Bom dia”. Minha irmã ainda dorme. Chacoalho sua perna, chamo pelo seu nome, ela não levanta. Ô preguiçosa. Ergo-a do chão, coloco-a nas costas e levo para o banheiro. Pesada. Jogo água gelada no seu rosto. Ela grita. Expulsa-me do banheiro e bate a porta. Rio. Ouço risadas. Bebo uma xícara de café, escolho um par de meias, chamo pela minha irmã; a carona chegou. Escova numa mão, mochila nos ombros, espuma na pia. “N! N, vamos logo!”. Descemos correndo, acompanhadas pelos cães. Que matilha enorme, ousam morder a minha perna. A tia corre na estrada, numa pressa sem motivo: são, ainda, 6h36. No ponto de ônibus, respiro o ar gelado. Subo as escadas, cumprimento o V, muito simpático; é, provavelmente, o motorista de ônibus mais gentil que conheço. Sento-me na terceira fileira de bancos, próxima à janela. Só eu estou lá. Abro meu livro, leio algumas páginas até os meus olhos arderem. Ergo-os , estamos saindo de Mailasqui. Tenho dez minutos para dormir. Apoio a cabeça no vidro, fecho os olhos, respiro fundo. Droga, não consigo dormir. Observo a paisagem, o corredor semivazio. Em pé, segurando o cano, fecho os olhos demoradamente. Sei que estamos passando pela Prefeitura, logo mais a Fratelli. Dou o sinal. Abro os olhos. Desço aos pulos os degraus, aceno para o Valdir. Um cara bacana, ele.

Está abafado. Olho pro céu e, cadê as nuvens? O sol bate forte nos meus olhos, pisco e vejo bolinhas flutuantes multicoloridas e psicodélicas; não tinha percebido que o sol estava tão alto. Isso não deve ser normal. Suspiro. Um, dois, três, quatro, cinco degraus. Pausa. Seis, sete, oito, nove, “oi seu guardinha!”. Onde eu estava mesmo? Perdi a conta! Amanhã eu reconto. Ou segunda.  7h32. Será que a profª já fez a chamada? Ela sempre me dá meia falta por chegar menos de cinco minutos atrasada. A culpa não é só minha, mas do ônibus também. Tá, eu sei que se eu subisse as escadas pulando de dois em dois degraus eu conseguiria chegar a tempo do número vinte e cinco, talvez. Bah. Que sono. Mal dormi à noite, de novo. O A puxa assunto. Ele é gente boa, o japonês. Comprou a aliança pra namorada, a sua primeira.  Mostrou-me o anel, numa caixinha em formato de coração. Mal sabe ele que a caixa estava torta, mas não falei nada. “Que linda! Quando vai entregar? Tá virando homenzinho, hoho, juízo, cara”. A T passa pela porta, junto com a J. “Aonde vocês vão?”. Parece que não tem quase ninguém na sala. A galera deve ter feito paredão sem avisar. E agora, entrar ou não entrar? A inspetora manda entrar. Quando ela me vê conversando com o A, me olha de um jeito estranho. Será que ela acreditou na história da Yakuza?… Subo dois lances de escada. Esse prédio não foi feito para sediar uma escola, definitivamente. Mais alguns passos, o L grita o meu nome e pula em cima de mim. Seu abraço me tira o fôlego e quase perder o equilíbrio. Bebo um gole d’água. Olho para o bebedouro, ele olha pra mim, e penso nas milhões de bactérias que estão ali. Dou de ombros. Caminho olhando pro chão, erguendo os olhos, às vezes, com um sorriso escondido. Esse pessoalzinho do primeiro ano, sempre no meio do corredor. “Bom dia, bom dia, bom dia”. Demorei, mas cheguei na sala.  7h39. A chamada já foi. Olho para os rostos, hoje tão poucos! Um, dois, três, quatro, sete, onze, quinze pessoas. De trinta e oito. Tudo bem, muita gente avisou que não viria hoje. Estão todos aglomerados no lado esquerdo da sala. Poxa, por que no lado esquerdo?… Tudo bem. Fico no meio da sala. Sento-me na cadeira, toda largada. Minha mochila, sobre a carteira, começa a escorregar para cima do meu abdomen. Seguro-a. Solto. Ela volta a escorregar. Deito em cima dela e perco a noção do tempo. Quando levanto a cabeça, já são mais de 8h. Quando foi que o tempo passou tão rápido? O D chegou, com seu violão e um sorriso engraçado nos lábios. Sempre assim. “Oi, Bombadão”. “Oi, Nipponesa”. Apelidos carinhosos, sabe como é. Nenhum de nós está muito bem. Eu, por causa do sono. Ele, não sei. Não tivemos aula. Um dia inútil. Inútil não, conversei bastante com o D, fazia tempo que não ficávamos sozinhos, sem a intervenção de outra pessoa no assunto e cortando o clima de segredos. Não que a gente tenha algum, eu não tenho quase nenhum para com ele, e vice-versa. Não me lembro desde quando somos tão próximos assim. Ele está depressivo. “Por quê”. Não quer dizer, diz que não pode, que deixarei de ser amiga dele.  Deve ser por causa da amada dele. Confabulamos algumas coisas que fizemos na infância sapeca, coisas que nunca contamos a ninguém, como o caso da lanterna sem vidrinho, da xícara de porcelana, coisas assim. Não há mais segredos para compartilhar. Há os sombrios, que escondemos até de nós mesmos, mas estes são pessoais demais.

O tempo não passa, ainda são 9h30. A profª de inglês passa alguns exercícios para pegar visto e poder marcar alguma coisa na caderneta. 9h37. Tédio. Ouvimos Kansas. Cantamos Avril Lavigne, do tempo em que era uma rockeirazinha com maquiagem borrada, com as suas músicas como “Nobody’s Home”, “Happy Ending” e “Slipped Away”. Aos treze anos, eu ouvia Avril. Qual menina não ouvia? Sabia várias de suas músicas de cor, algumas até hoje. Conversamos sobre a nossa infância, os tempos em que o bullying não era o bullying, em que as crianças eram saudáveis e garotos e garotas brincavam juntos. 10h.

Bate o sinal, saímos da sala juntos. Não há muito o que fazer. O M chega perto, diz que fará uma apresentação sobre A Bunda, de Carlos Drummond de Andrade. “Que bacana, cara”. Blablabla, blablabla. Sentados sob o sol, ouvimos o sinal bater, 10h15. Aula de ADPA, do F. Ah, o F. Gosto desse professor; se a aula não fosse dele, eu nem subiria tão cedo.

De volta à sala, conversamos sobre nada e tudo. O celular vibra. Sorrio. O D tira sarro da minha cara, acha que sabe o que recebi. “Não encha, é uma mensagem da Claro, oferecendo-me um Dell Inspiron”. Ele não acredita, nem eu mesma. Começamos a filosofar. Isso não é muito saudável, não nessa época ultra-romantista. Bate o sinal. Sorrio. Ele olha pra mim e dá o seu sorriso estranho. Sei no que está pensando, também estou pensando na mesma coisa. Começamos a discutir sobre um cara chamado Taíde. Taíde? Sei lá. Nem percebo os degraus enquanto pergunto quem é Taíde e o rap e sei lá o que tem esse cara. Quando vejo, já estou na entrada. Acabou a minha manhã.

Publicado em: às 20/11/2010 em 22:27  Comentários (1)  

Coincidências

O mundo é repleto de coincidências. A sua própria existência foi uma. O Big Bang? Coincidência também. Mas, em primeiro lugar, o que são coincidências? “Identidade ou igualdade de duas coisas ou mais; ocupação do mesmo espaço; simultaneidade de dois ou mais acontecimentos”, diz o meu Aurélio. A coincidência é, também, uma obra do acaso. E não foi por um acaso que uma enorme quantidade de matéria se aglomerou e resultou numa gigantesca explosão, que originou o Universo? Não foi por um acaso a pelota de fogo esfriar e ter alguns meteoritos caindo na sua superfície, com algo que conhecemos como água? E, pulando alguns anos para frente, você mesmo(a) não é o resultado de um enorme acaso, um acontecimento de uma probabilidade mínima? Afinal, de 400 milhões de espermatozóides que poderiam ter fecundado o óvulo, justo esse, com esse código que você carrega, é que conseguiu penetrá-lo. E, não só a fecundação, como também a formação do seu feto, de você. E o seu crescimento? Mais uma obra do acaso, da coincidência! Ter conhecido as pessoas que conheceu, passado pelas coisas que passou, ter sentido o que sentiu. O mundo é regido pelas coincidências.

É engraçado como muitas vezes não percebemos como somos uma obra do acaso. Uma coincidência. E, talvez por isso mesmo, tenhamos tanta dificuldade em acreditar nelas. “Coincidências dentro de coincidências que coincidem entre si”?… “Ora, não foi uma coincidência termos nos encontrado lá e eu ter descoberto tal coisa, alguém planejou”. A crença na coincidência em si é ingênua, porém, a total descrença nela é doentio, torna as pessoas maníacas e temerosas, sempre desconfiadas de que há um projeto governamental ou de alguma agência secreta ou um plano arquitetado por uma raça alienígena superior à terráquea. Ou leva-as a crer nas linhas certas e tortas de Deus. Ou do Destino.  Por que não acreditar na coincidência? Se é possível crer em acidentes, por que não em coincidências?

Há muitas negações em torno das coincidências; muitos afirmam que elas não existem, que é o denominado “Destino” que rege o mundo, ou que as coisas são como são “porque Deus quis”. Balela. Muitas vezes, é mais cômodo pensar que as coisas já estavam premeditadas e que você é apenas um peãozinho num tabuleiro de xadrez seguindo um script. Cômodo, porque aí não teremos que nos dar ao trabalho de construir o nosso próprio futuro, pois ele já está escrito. Claro que há sempre as conspirações mais densas que giram em torno de uma jogada se antecipando a outra que se antecipou a outra, e que todos os “se” foram previstos, como num algoritmo. Uma linguagem de programação. Mas, aí, seríamos um tipo de máquinas com códigos e planos de ação, manipuladas antes mesmo de pensarmos em existir. É como se estivéssemos num filme, como Boris percebeu enquanto conversava com a platéia. “Isso é o que me faz ser gênio”, dizia. Talvez seja, por ser uma visão diferenciada e que ninguém, provavelmente, tem.

Eu, particularmente, acredito nas coincidências. Mais do que em manipulações. Talvez por isso seja tão fácil me enganar, acredito na pureza das coisas e do acaso: gosto de pensar que foi um conjunto de coincidências engraçadas que nos aproximou e que tudo foi um encontrão que demos enquanto voávamos perdidos em meio a matéria do Universo. Soa estúpido, mas é verdade.

Publicado em: às 20/11/2010 em 04:48  Comentários (1)  
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