5h30, Metallica me chama. Enrolo na cama, estico meu corpo, tomo impulso para levantar e amoleço. Tenho mais dez minutos para levantar. Meus pés pisam no chão gelado e vem um arrepio nas costas. A camiseta estremece. Ligo o chuveiro. Desperto. Perco a noção do tempo. Esqueci de desativar o alarme, ele está tocando de novo. Não ligo. Desenho no box, deixo recados para mim mesma, desligo o chuveiro. Mal abro a porta, vem o vento gelado da manhã. Uma escova de dentes na boca, uma camiseta na mão, visto-me com pressa: já são mais de 6h. Sinto um aroma de café vindo da cozinha. “Bom dia”. Minha irmã ainda dorme. Chacoalho sua perna, chamo pelo seu nome, ela não levanta. Ô preguiçosa. Ergo-a do chão, coloco-a nas costas e levo para o banheiro. Pesada. Jogo água gelada no seu rosto. Ela grita. Expulsa-me do banheiro e bate a porta. Rio. Ouço risadas. Bebo uma xícara de café, escolho um par de meias, chamo pela minha irmã; a carona chegou. Escova numa mão, mochila nos ombros, espuma na pia. “N! N, vamos logo!”. Descemos correndo, acompanhadas pelos cães. Que matilha enorme, ousam morder a minha perna. A tia corre na estrada, numa pressa sem motivo: são, ainda, 6h36. No ponto de ônibus, respiro o ar gelado. Subo as escadas, cumprimento o V, muito simpático; é, provavelmente, o motorista de ônibus mais gentil que conheço. Sento-me na terceira fileira de bancos, próxima à janela. Só eu estou lá. Abro meu livro, leio algumas páginas até os meus olhos arderem. Ergo-os , estamos saindo de Mailasqui. Tenho dez minutos para dormir. Apoio a cabeça no vidro, fecho os olhos, respiro fundo. Droga, não consigo dormir. Observo a paisagem, o corredor semivazio. Em pé, segurando o cano, fecho os olhos demoradamente. Sei que estamos passando pela Prefeitura, logo mais a Fratelli. Dou o sinal. Abro os olhos. Desço aos pulos os degraus, aceno para o Valdir. Um cara bacana, ele.
Está abafado. Olho pro céu e, cadê as nuvens? O sol bate forte nos meus olhos, pisco e vejo bolinhas flutuantes multicoloridas e psicodélicas; não tinha percebido que o sol estava tão alto. Isso não deve ser normal. Suspiro. Um, dois, três, quatro, cinco degraus. Pausa. Seis, sete, oito, nove, “oi seu guardinha!”. Onde eu estava mesmo? Perdi a conta! Amanhã eu reconto. Ou segunda. 7h32. Será que a profª já fez a chamada? Ela sempre me dá meia falta por chegar menos de cinco minutos atrasada. A culpa não é só minha, mas do ônibus também. Tá, eu sei que se eu subisse as escadas pulando de dois em dois degraus eu conseguiria chegar a tempo do número vinte e cinco, talvez. Bah. Que sono. Mal dormi à noite, de novo. O A puxa assunto. Ele é gente boa, o japonês. Comprou a aliança pra namorada, a sua primeira. Mostrou-me o anel, numa caixinha em formato de coração. Mal sabe ele que a caixa estava torta, mas não falei nada. “Que linda! Quando vai entregar? Tá virando homenzinho, hoho, juízo, cara”. A T passa pela porta, junto com a J. “Aonde vocês vão?”. Parece que não tem quase ninguém na sala. A galera deve ter feito paredão sem avisar. E agora, entrar ou não entrar? A inspetora manda entrar. Quando ela me vê conversando com o A, me olha de um jeito estranho. Será que ela acreditou na história da Yakuza?… Subo dois lances de escada. Esse prédio não foi feito para sediar uma escola, definitivamente. Mais alguns passos, o L grita o meu nome e pula em cima de mim. Seu abraço me tira o fôlego e quase perder o equilíbrio. Bebo um gole d’água. Olho para o bebedouro, ele olha pra mim, e penso nas milhões de bactérias que estão ali. Dou de ombros. Caminho olhando pro chão, erguendo os olhos, às vezes, com um sorriso escondido. Esse pessoalzinho do primeiro ano, sempre no meio do corredor. “Bom dia, bom dia, bom dia”. Demorei, mas cheguei na sala. 7h39. A chamada já foi. Olho para os rostos, hoje tão poucos! Um, dois, três, quatro, sete, onze, quinze pessoas. De trinta e oito. Tudo bem, muita gente avisou que não viria hoje. Estão todos aglomerados no lado esquerdo da sala. Poxa, por que no lado esquerdo?… Tudo bem. Fico no meio da sala. Sento-me na cadeira, toda largada. Minha mochila, sobre a carteira, começa a escorregar para cima do meu abdomen. Seguro-a. Solto. Ela volta a escorregar. Deito em cima dela e perco a noção do tempo. Quando levanto a cabeça, já são mais de 8h. Quando foi que o tempo passou tão rápido? O D chegou, com seu violão e um sorriso engraçado nos lábios. Sempre assim. “Oi, Bombadão”. “Oi, Nipponesa”. Apelidos carinhosos, sabe como é. Nenhum de nós está muito bem. Eu, por causa do sono. Ele, não sei. Não tivemos aula. Um dia inútil. Inútil não, conversei bastante com o D, fazia tempo que não ficávamos sozinhos, sem a intervenção de outra pessoa no assunto e cortando o clima de segredos. Não que a gente tenha algum, eu não tenho quase nenhum para com ele, e vice-versa. Não me lembro desde quando somos tão próximos assim. Ele está depressivo. “Por quê”. Não quer dizer, diz que não pode, que deixarei de ser amiga dele. Deve ser por causa da amada dele. Confabulamos algumas coisas que fizemos na infância sapeca, coisas que nunca contamos a ninguém, como o caso da lanterna sem vidrinho, da xícara de porcelana, coisas assim. Não há mais segredos para compartilhar. Há os sombrios, que escondemos até de nós mesmos, mas estes são pessoais demais.
O tempo não passa, ainda são 9h30. A profª de inglês passa alguns exercícios para pegar visto e poder marcar alguma coisa na caderneta. 9h37. Tédio. Ouvimos Kansas. Cantamos Avril Lavigne, do tempo em que era uma rockeirazinha com maquiagem borrada, com as suas músicas como “Nobody’s Home”, “Happy Ending” e “Slipped Away”. Aos treze anos, eu ouvia Avril. Qual menina não ouvia? Sabia várias de suas músicas de cor, algumas até hoje. Conversamos sobre a nossa infância, os tempos em que o bullying não era o bullying, em que as crianças eram saudáveis e garotos e garotas brincavam juntos. 10h.
Bate o sinal, saímos da sala juntos. Não há muito o que fazer. O M chega perto, diz que fará uma apresentação sobre A Bunda, de Carlos Drummond de Andrade. “Que bacana, cara”. Blablabla, blablabla. Sentados sob o sol, ouvimos o sinal bater, 10h15. Aula de ADPA, do F. Ah, o F. Gosto desse professor; se a aula não fosse dele, eu nem subiria tão cedo.
De volta à sala, conversamos sobre nada e tudo. O celular vibra. Sorrio. O D tira sarro da minha cara, acha que sabe o que recebi. “Não encha, é uma mensagem da Claro, oferecendo-me um Dell Inspiron”. Ele não acredita, nem eu mesma. Começamos a filosofar. Isso não é muito saudável, não nessa época ultra-romantista. Bate o sinal. Sorrio. Ele olha pra mim e dá o seu sorriso estranho. Sei no que está pensando, também estou pensando na mesma coisa. Começamos a discutir sobre um cara chamado Taíde. Taíde? Sei lá. Nem percebo os degraus enquanto pergunto quem é Taíde e o rap e sei lá o que tem esse cara. Quando vejo, já estou na entrada. Acabou a minha manhã.