Conheço as ruas por onde caminho, sei de cor e salteado os endereços de lugares que gosto, sei andar de metrô, aprendi a ter medo de andar sozinha. Conheço os prédios, os sons, a movimentação e os horários de pico. Sei onde a comida é boa, sei onde a comida é barata, onde posso pechinchar e onde não devo entrar. Habituei-me à cidade, acostumei-me às pessoas pouco simpáticas e distraídas. Meus constantes choques com circunstâncias extraordinárias diminuíram, perdi muito da ingenuidade que a vida no interior manteve até recentemente dentro de mim. Conheci a multidão, o empurra empurra, e entendi, finalmente, a adoração dos paulistas em relação ao mato. O mato é ótimo. Silencioso, sereno, tem um aroma sem cheiro. Lá você se ouve, você se sente, a sensação de humanidade está presente em cada parte do seu corpo. Em meio a solidão você se encontra. Na cidade grande, a solidão nos apavora e devora, um pouco de cada vez. Finge não existir, disfarçada nas milhões de pessoas que circulam pela cidade; seu silêncio é desesperador. Eu sinto falta do mato. Eu sinto falta de casa.
Todos os dias, ao acordar, penso na minha casa. Como estará? Sentem a minha falta? Do meu mau humor pela manhã, dos gritos com os cães e com os afagos na cabeça? E dos meus doces e bolos, minhas neuroses e meu cantarolar no banho? Sentem a falta do meu barulho, será? Eu sinto a falta, do ambiente, das pessoas e de quem sou quando lá estou. Não me sinto mais como uma estranha por aqui, mas não me sinto à vontade. Alguma coisa está errada, sempre está, mas não sei ao certo o quê. A falta da Felicidade, talvez. Choro de saudade pelos cantos, pensando na minha mãe e na minha irmã, duas das pouquíssimas pessoas com quem realmente tenho intimidade. Não conversava sobre quase nada mais pessoal com elas, mas sobre todo o resto. Tenho saudade das noites assistindo seriados, de fazer o almoço juntas, de andar de carro e a pé conversando sobre o tempo. Eram banalidades, mas me fazem tanta falta!… Já deveria ter me acostumado, mas não consegui. Eu sinto, é inevitável. Osho diz que devemos praticar o desapego, mas eu não consigo, não quero, preciso disso. Se não fosse isso, já teria morrido meses atrás.
Sinto a falta do som de casa, do cheiro, da sensação, do chão gelado, do barulho à noite. Antes, eram gafanhotos e cães. Hoje, são carros, aviões e dois milhões de pessoas. Eu gostava da solidão quando morava por lá. Podia ficar reclusa quando quisesse, durante o tempo que quisesse; mas sabia que, quando precisasse de companhia, era só ir até a sala onde minha mãe trabalhava e minha irmã estudava para ter companhia novamente: era uma solidão facultativa, digamos assim. Aqui, não tenho nada. tenho a mim, mas perdi-me. Não tenho certeza se quero me encontrar, pelo menos não por enquanto. Preciso amadurecer e me aceitar de volta. Porém, mal me aguento, sou chata demais.
Não raro converso comigo mesma. Quando brigo comigo, mal me olho no espelho. Fico dias sem me olhar, saindo de casa com os cabelos desgrenhados e com pasta de dente na bochecha. Faço as pazes, volto a pentear os cabelos e a ficar asseada; aí brigo novamente porque não tenho Tempo para me arrumar de manhã e fico chateada comigo, sinto a minha falta e fico novamente sem falar comigo. Briguinhas banais, mas que fazem parte. Tenho a mim, converso comigo, brigo comigo, choro comigo; tornei-me mais egocêntrica, mais séria e mais chata, acho. Não é um problema tão grande, mas chega uma hora que não aguento mais ouvir a minha voz. Aí ficamos, eu e eu, num regime de silêncio, quebrado pelo som da Cidade. De vez em quando ouço o eco de um pensamento, mas antes que eu o pense novamente ele escapa da minha voz e o perco.
Faço o que posso para sentir-me bem. Às vezes o sorriso desvanece do meu rosto e só percebo quando olham para mim com um ar preocupado, pedindo por um sorriso. Esqueço de sorrir, não sempre; quando esqueço, trato de sorrir rapidinho com a maior alegria que me for possível sentir ou, pelo menos, forjar. Confesso, porém, que tou me cansando disso.
Ah, sei lá. Gostaria de escrever mais, mas agora não quero. Boa noite.